Dezembro - 1987
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A FILOSOFIA DO ESPIRITISMO

Tratando da filosofia fechamos a trilogia de observação espírita — pois o momento-religião e o momento-ciência foram os temas de editorial dos dois números anteriores.

Fechamos a trilogia filosofia, ciência e religião, demonstrando que o Espiritismo se apresenta à humanidade nesses três momentos, mas em bloco — isto é, não são fatias separadas, desconexas. São tão intimamente ligados esses momentos que não fazemos um sem tocar nos outros. Divaldo Pereira Franco, na entrevista que concedeu ao Jornal da SBEE (último número), disse que o Espiritismo “pela sua própria origem, é uma ciência de pesquisa, tornando-se uma filosofia de comportamento e uma religião de vivência”.

Isso precisa ficar claro ao movimento espiritista. Qualquer entendimento no sentido de excluir qualquer dos momentos, restringe o conceito doutrinário.

Antes de mais nada, se fizermos um apanhado assim bem amplo do conceito de filosofia, podemos concluir que o Espiritismo é uma filosofia. Mas — atenção! —, entenda a filosofia, aqui, como sendo a grande esfera que contém as outras três esferas menores (filosofia propriamente dita, ciência e religião).

Isso porque, como disse Roberto Gomes: “Sempre que uma razão se expressa, inventa filosofia” (Crítica à razão tupiniquim. 8. ed. Curitiba, Edições Criar 1986. p. 21).

Desta forma, o primeiro diálogo que o ser humano teve com o mundo filosófico — “Quem sou eu?”, etc., lembram-se? Tudo o mais que se construiu após essas primeiras indagações são, necessariamente, decorrências do ato de filosofar.

Você nunca deixa de expor uma razão, um pensamento, um raciocínio. Faça você filosofia, ciência ou religião (supondo que desse para segmentar esses enfoques), estará sempre dentro da grande esfera chamada filosofia, portanto estará externando, pondo pra fora de você, um pensamento. Por isso é que a filosofia não é privilégio de filósofos. Desde que pense indagando, você é um filósofo (evidentemente, não no sentido da organização acadêmica da história do pensamento humano).

A preocupação daqueles que trabalham na divulgação da mensagem espírita, está justamente na dificuldade que se encontra para se evitar as distorções de interpretação. Sendo uma doutrina de livre-exame, o Espiritismo se presta muito a leituras distorcidas. Mas esse é o risco que corre toda a mensagem codificada linguisticamente. Como as palavras não transmitem sentido — os sentidos estão dentro das pessoas que lêem as palavras —, cada leitor lerá conforme sua bagagem histórica, sua bagagem de experiência vivida, seus conhecimentos. Se você apresenta quadros, com várias tonalidades de azul, a um pintor, ele dirá o nome de várias tonalidades. A alguém não-entendido, todas serão azul.

Então, a dimensão de interpretação filosófica da Doutrina Espírita tem dessas coisas. A leitura, por exemplo, do livro Nosso lar  (de André Luiz, psicografado por Chico Xavier), pode levar os leitores a um estado pleno de alegria açucarada ante o porvir anunciado. Mas pode causar uma reflexão profunda ao intérprete interessado na verdade, interessado em separar o simbólico do real. Como será a vida no espaço espiritual? O que são as paragens espirituais? Enfim, são perguntas cujas respostas não acontecem sem filosofia. Ainda que a manifestação mediúnica revele referenciais de pensamento, a visualização — mesmo aproximada — da imagem, dependerá da organização do pensamento.

Apoiar-se em discursos dos clarividentes, não basta. O médium clarividente dirá aquilo que ele viu — o que não significa retrato fiel da realidade, mas tão-somente a leitura que uma pessoa fez daquilo que viu.

A filosofia espírita se expressa nessas reflexões e, também, no comportamento humano. As condutas ocorrem segundo uma determinada filosofia — frívola ou não. As pessoas que agem tipo “cada um pra si”, não deixam de agir segundo uma filosofia de vida (aliás, péssima!). E a filosofia de vida descrita pelo Espiritismo — atenção: descrita, não imposta! —, a seu turno, procurará, continuidade, descrever e orientar comportamentos conformes às leis do Universo, que levem o orientado a encontrar o seu equilíbrio, a sua harmonia, a sua paz... o seu autoconhecimento.

Propositalmente, a abordagem que fizemos da trilogia espírita se deu na ordem inversa. Nosso primeiro editorial tratou do momento-religião do Espiritismo, depois o momento-ciência e, finalmente, o momento-filosofia.

Como a intenção era uma análise do conceito de Espiritismo, partimos da síntese, da composição.

A filosofia indaga, apresenta-se a tese, propõe; a ciência transcende a pergunta e a resposta, faz a síntese, promove a composição do ser cósmico.

Documentos SBEE
Ano III - Número 7     Dezembro 1987